Tudo que vai, volta. Uma lição para não esquecer.

 

Tudo que vai, volta. Uma lição para não esquecer.

 Ⓡ︎ RANKENLT 


Olho por olho.

Uma lição que não deve ser esquecida.

No dia do meu aniversário, eles me deixaram sozinha em casa e foram para a Europa com as minhas economias.

Mas quando eles voltaram… a casa não estava mais lá à espera deles.

No dia em que completei trinta e quatro anos, acordei antes do sol nascer.

No México, nem sempre há festas enormes, mas os aniversários são sagrados. Mesmo que seja apenas um bolo simples do supermercado, um bule de café quente e uma versão um pouco desafinada de "Las Mañanitas".

Eu não esperava balões.

Apenas um abraço.

Só para sentir que eu importava.

Entrei na cozinha e vi Ricardo fechando uma mala grande sobre a mesa.

Não era uma mala pequena.

Era uma daquelas peças de roupa que você veste quando não pretende voltar tão cedo.

Minha sogra, Dona Helena, estava checando o celular com um sorriso radiante demais para aquele horário.

Minha cunhada, Larissa, gravou histórias:

— Linda família, pronta para decolar!

Fiquei parado na porta.

— O que está acontecendo?

Ricardo respondeu sem olhar para mim:

— Partiremos em uma hora. Dez dias. Europa.

Senti o chão se mover.

— Vamos?

Dona Helena suspirou com paciência adquirida:

— Madri, Barcelona… talvez Paris. Nós merecemos.

Olhei para o relógio.

— Hoje é meu aniversário.

Ricardo fechou a mala com um baque seco.

— Vamos comemorar quando voltarmos

Nesse instante, meu celular vibrou.

Notificação bancária.

Um grande retiro.

Não é grande… é enorme.

Abri o aplicativo. O número me deixou com a garganta irritada.

Eram as minhas economias.

Anos de horas extras.

Contratos temporários.

Trabalhando nos fins de semana enquanto eles dormiam.

— Você usou meu dinheiro?

Ricardo revirou os olhos.

— Nós o substituiremos mais tarde. Além disso, é para a família.

Família.

Larissa interveio:

"Alguém tem que cuidar da casa, Camila. Não seja tão dramática."

Cuide da casa.

Como se eu fosse o sistema de alarme.

Como se meu papel fosse ficar imóvel enquanto eles vivessem.

Uma hora depois, eles foram embora.

Sem bolo.

Sem um abraço.

Sem vela acesa.

Apenas o som de malas rolando pela calçada e o perfume caro da minha sogra pairando no ar como uma zombaria.

Fiquei sozinha no quarto.

Olhei para a fotografia acima da lareira.

E então me lembrei de algo que eles pareciam ter esquecido:

Comprei a casa antes de me casar.

Eu paguei em dinheiro vivo.

Está registrado exclusivamente em meu nome.

Eu não chorei naquela noite.

Naquela noite, fiz ligações.

Primeiro, consulte um advogado.

Em seguida, procure um agente imobiliário.

Em seguida, contate uma empresa de mudanças.

Dormi por três horas.

Não houve fúria descontrolada.

Havia clareza.

O advogado foi direto:

— O imóvel era anterior ao casamento?

- Sim.

— Está apenas em seu nome?

- Sim.

— Você tem os recibos?

- Todos.

Breve silêncio.

— Então você poderá vender. Faça tudo corretamente. Documente tudo. Proteja-se.

Foi isso que eu fiz.

Pedi dois dias de folga.

Não sofrer. Organizar.

Primeiro guardei as coisas de valor sentimental: as joias da minha avó, cartas antigas, fotografias.

Em seguida, o essencial: documentos, computador, ferramentas de trabalho.

O que era meu, eu protegi.

Fiz um inventário do que lhes pertencia.

O agente imobiliário visitou a casa.

— Venda rápida. O bairro de Del Valle é muito procurado. Cozinha reformada. Você quer um preço alto ou uma venda rápida?

Eu fiquei olhando para ela.

— Quero que desapareça. Mas de forma justa.

Publicamos na quinta-feira.

Já havia visitantes no sábado.

Segunda-feira, ofertas.

Entretanto, nas redes sociais:

Ricardo brindando em Madri.

Dona Helena exibindo uma paella.

Larissa posando em frente à Torre Eiffel como se o mundo fosse um palco particular.

Com o meu dinheiro.

No sexto dia, aceitei uma oferta acima do preço.

Pagamento líquido.

Encerramento imediato.

Mudei de endereço.

Abri uma nova conta bancária.

Atualizei as senhas.

Eu cancelei os serviços.

Bloqueei meu histórico de crédito.

Na noite anterior à assinatura final do contrato, caminhei pela casa vazia.

Não senti tristeza.

Senti alívio.

Como se ela finalmente não estivesse mais carregando um peso invisível.

No dia em que eles voltaram, eu já estava instalado em um apartamento pequeno, mas luminoso, no bairro de Narvarte.

Eu fiz café.

Abri a transmissão ao vivo da câmera do portão antigo.

O táxi parou em frente à casa.

Ricardo saiu primeiro.

Depois, as malas.

Dona Helena ajeitou o blazer.

Larissa estava gravando... até que viu a placa.

Já não estava escrito "À venda".

Dizia:

VENDIDO.

Ricardo permaneceu imóvel.

A chave suspensa no ar.

Ele tentou abri-la.

Não abriu.

Meu celular começou a vibrar.

Ricardo:

— O que você fez?

Larissa:

— Isso é uma loucura.

Dona Helena:

— Abra a porta. Não temos para onde ir.

Espere.

Pela primeira vez em anos, esperei sem medo.

Então enviei uma mensagem:

“Estou bem. Eles usaram meu dinheiro para viajar no meu aniversário. Usei meus bens para me proteger. De agora em diante, qualquer assunto será tratado por meio do meu advogado.”

Eu vi o Ricardo lendo.

O rosto perdeu a cor.

Larissa parou de gravar.

Dona Helena bateu na porta como se a realidade lhe devesse obediência.

E senti algo que não sentia há muito tempo:

Paz.

Não houve escândalo.

Não houve nenhum drama na rua.

Para eles, foi algo ainda pior...