História Falsa: As Crianças Perdidas da Tartária
Durante os séculos XVIII e XIX, estima-se que 500.000 crianças órfãs e desenraizadas da Rússia, Europa Oriental e Ásia foram enviadas para todo o mundo. Separadas de suas famílias, de sua cultura, de suas tradições e de sua língua materna, elas chegaram a países completamente estrangeiros — sem qualquer noção real de onde estavam ou do que as aguardava. Por Guy Anderson
Quando chegaram à idade adulta, grande parte do mundo de onde vieram havia desaparecido tanto da memória quanto dos livros de história.
Eles vieram de uma região antes conhecida como Tartária – uma vasta civilização que foi apagada da história oficial. Quando essas crianças chegaram ao seu novo lar, poucas pessoas tinham ideia do mundo que haviam deixado para trás.
Isso possibilitou substituir os resquícios de sua identidade original por algo completamente novo, enquanto as verdadeiras origens de inúmeras crianças desapareceram da consciência pública.
O movimento "Trem dos Órfãos" tornou-se um dos aspectos mais conhecidos dessa história e foi retratado como uma iniciativa humanitária que visava colocar crianças carentes em famílias amorosas.
Grandes grupos de meninos e meninas eram transportados por longas distâncias na expectativa de serem acolhidos por famílias; em vez disso, muitas vezes se viam diante de multidões de estranhos que os inspecionavam como gado em um mercado. Eram frequentemente julgados por sua idade, aparência, saúde física e capacidade de trabalho, e muitos deles nunca foram adotados.
Em vez disso, muitos acabaram em fazendas onde trabalharam por anos – em troca do mínimo necessário para sobreviver, como comida e abrigo – e muitas vezes eram repassados para outras famílias quando as circunstâncias mudavam. Para alguns, a vida melhorou, mas para muitos outros, a realidade pouco se assemelhava às promessas feitas a eles antes da jornada.
Sua utilidade substituiu sua infância, e essa utilidade era frequentemente medida pela quantidade de trabalho que se podia extrair deles.
A tragédia foi muito além da perda dos pais, pois os afetados também perderam sua conexão com uma cultura que já começava a desaparecer da consciência pública. Apresentei minhas descobertas de pesquisa sobre esse tema em * Tesla e os Cabbage Patch Kids* e as desenvolvi ainda mais em *A Ascensão dos Clones: Os Cabbage Patch Babies * — uma obra que também inclui inúmeros relatos pessoais de testemunhas da época.
Esses relatos contrastam histórias humanas genuínas com uma narrativa que, com muita frequência, se reduz a meros números, listas de transporte e documentos oficiais. Muitas dessas crianças passaram o resto de suas vidas forjando novas identidades em países que jamais consideraram seu lar.
Eles cresceram, formaram suas próprias famílias e se integraram a uma população que nada sabia sobre suas origens. A cada geração, mais um pedaço do velho mundo desaparecia, até que finalmente restaram apenas fragmentos.
Os registros que ainda existem hoje nos dizem para onde muitas dessas crianças foram enviadas, mas oferecem pouca informação sobre o que lhes foi tirado durante o processo.
O foco continua sendo em medidas de transporte, moradias e programas de adoção, enquanto a profunda perda cultural recebe muito menos atenção.
Por trás de cada nome em uma lista de passageiros ou em um registro doméstico, havia uma criança cuja ligação com sua terra natal, sua própria história e sua ancestralidade havia sido rompida para sempre.
